Entrevista com Priscila Siqueira autora do livro Tráfico de Pessoas – Quanto vale o ser humano na balança comercial do lucro?

Por que decidiu organizar a obra sobre o tema?

Desde 1996, quando tive a oportunidade de participar do primeiro Congresso Mundial sobre Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes, que aconteceu em Estocolmo, organizado pela UNICEF e o governo sueco, entrei em contato com perversa realidade do trafico de pessoas que atingia, inclusive, crianças, adolescentes além das jovens mulheres brasileiras.

Como a ONG Serviço a Mulher Marginalizada, da qual eu fazia parte, tinha como missão lutar contra a exploração sexual de mulheres e meninas, depois de ampla discussão com a companheiras de trabalho, decidimos  priorizar o trafico de mulheres e meninas em nossa agenda de ação. Sem duvida fomos uma das ONGS pioneiras no enfrentamento a esse crime no País. Nossa luta começou em 1996;  a Politica Nacional de Enfrentamento ao Trafico de Pessoas, que ajudamos a elaborar como sociedade civil, e de 2006. Chegamos, inclusive, a mudar o nome da ONG para Serviço de Prevenção a Tráfico de Mulheres e Meninas.

Como já existiam numerosos artigos  sobre o Tráfico de Pessoas-TP, mas dirigidos a especialistas ou de Direito ou aqueles que trabalhavam com a questão, resolvi organizar uma obra que tivesse profundidade mas com linguagem simples, afim que de toda sociedade brasileira( olha que pretensão…) entendesse do que estávamos falando e percebesse quo o TP não e uma lenda urbana.

Minha parceira nessa empreitada foi a professora Maria Quinteiro, pesquisadora do Grupo de Estudos Gênero, Mulheres e Temas Transacionais –Gemttra, da USP, que realizou seminários na universidade discutindo o tema. Maria Quinteiro tem um inestimável trabalho com a questão de gênero, com diversas obras publicadas aqui e no exterior.

Quanto tempo demorou para que a obra estivesse pronta? Quais foram suas fontes mais importantes?

Esse e um livro é fruto de anos de trabalho. Eu, particularmente, já tenho outras publicações sobre o tema. Porem, dessa vez, quisemos um livro que abrangesse, não só o trafico humano para exploração sexual comercial, mas todas as suas modalidade, isto e, também o trabalho escravo, trafico de órgãos e tecidos  além da adoção ilegal. Procuramos a participação de pessoas envolvidas em cada faceta desse crime, além das medidas que estão sendo tomadas no País para combate-lo. Claro que o livro não e uma obra definitiva sobre o assunto, e só uma analise sobre o que esta ocorrendo agora  no Brasil.

Qual parte é mais relevante ou especial do livro?

Creio que todos os capítulos são relevantes, pois tratados por profissionais que têm experiência no  enfrentamento  das diversas modalidades do crime. Gostaríamos de aprofundar ainda mais as questão do tráfico de órgãos e tecidos, além da adoção ilegal, Fica para outro livro…

Qual é a principal ideia que o leitor terá ao acabar de ler o livro?

O que pretendemos com o livro e dar uma contribuição na sensibilização da sociedade civil que ainda não acredita que tal crime exista e que nosso pais esta envolvido com ele. Como diz a ONU, nenhuma Nação do mundo e inocente, ou ela compra ou vende pessoas como se fossem mercadorias.

Acredito que a novela levada ao ar pela Globo sobre o assunto , ajudou a essa conscientização, mas sua mensagem foi muito edulcorada. Da para se entender, pois não podia ser diferente. Mesmo pasteurizada, foi a novela do horário nobre dessa emissora que teve pior índice de audiência e só sobreviveu a nove meses. Depois de uma dura jornada de trabalho, o telespectador não quer enfrentar mais uma realidade que o deixa angustiado.  Mesmo assim, creio que foi muito bom o resultado da novela, pois a Globo atinge todo território nacional.

Com a Campanha da Fraternidade da Igreja Católica, para 2014, que pretende ser ecumênica discutindo tal tema, acredito que daremos um salto de qualidade na consciência e no envolvimento as pessoas na briga contra o TP.

Qual é o público que atingir?

O livro pretende dar subsídios a todos que queiram entrar na luta contra esse crime tão perverso. Muitas vezes as pessoas nos dizem se sentirem impotentes para enfrenta-lo. Mas se o crime e organizado, porque nos que queremos uma sociedade mais justa e fraterna, não nos organizamos nas igrejas, escolas, clubes de serviço, aonde podemos discutir o assunto e prevenir que uma desgraça aconteça?

O TP e enfrentado em três pilares : PREVENCAO ; REPONSABILIZACAO E ATENDIMENTO AA VITIMA. A Responsabilização cabe totalmente ao Estado com seu aparato policial e jurídico. Não somos nos que vamos prender os traficantes de pessoas ; o Atendimento aa vitima e prioritariamente, também uma tarefa do Estado. Eu sempre digo que na Prevenção ao TP, a sociedade civil nada de braçada…

Quais são os principais fatores que levam ao trafico de pessoas?

O TP pode ser representado como um triangulo de lados iguais- Oferta, Demanda e Impunidade.

O que determina a oferta de pessoas para o tráfico? A pobreza, falta de condições de vida digna como estudo, trabalho, saúde e lazer, ao lado  de fatores culturais que são determinantes na demanda. O que faz com que o homem, se sinta no direto de usar sexualmente uma mulher vulnerável ou de uma criança? São os fatores determinados por um sistema patriarcal que se apoia na ideologia machista.

Se não houvesse demanda, não haveria oferta. O trafico de pessoas e resultado de uma demanda que  usa pessoas, para o trabalho escravo, para o trafico de órgãos e tecidos, para a satisfação sexual…

E ai entra a impunidade a esse crime. Não só no Brasil, mas em todo o mundo o TP de pessoas pegou os legisladores de `calcas curtas`. Como imaginar que tal crime iria acontecer em pelo século XXI ?

A  legislação contra o TP ainda esta sendo elaborada em nível nacional e mundial. Dai haver tanta impunidade ao crime que já e a segunda fonte ilegal de riqueza no mundo, só perdendo para o trafico armamentos.

Qual seria a melhor forma de evitar o trafico de pessoas?

Quando enfrentamos o TP estamos enfrentando a ponta de um iceberg que a própria estrutura socia- econômica mundial. A professora da Universidade de Brasília, Maria Lucia Leal e clara quando afirma que a rota do trafico e a rota da grana: das regiões pobres do planeta para as regiões ricas. Isso se da tanto internamente nos países como para outras nações.

A luta contra o TP e dialética: temos de enfrentar o crime ao mesmo tempo que temos de lutar por uma sociedade global mais justa, igualitária  onde todos os seres humanos sejam tratados como cidadãos e filhos da Divindade.

O trafico de pessoas remota desde o inicio da humanidade. Seria realmente possível excluir esse abuso que atinge ainda hoje as sociedades mais avançadas e abastada economicamente?

Apesar de haver  escravidão e portanto, trafico humano desde o inicio da humanidade, as características do TP da atualidade são diferentes. Este e um crime estreitamente ligado a sociedade neoliberal e globalizada em que vivemos que da prioridade ao lucro e não a pessoa humana.

Diferentemente do trafico de negros existente no Brasil ate o século XIX, hoje o trafico humano e uma atividade empresarial com uma linha de montagem: vai da pessoa que coopta o traficado ou rapta a criança, numa engrenagem que lhe fornece documento e o aloja nos locais de exploração como um bordel, uma fazenda ou na construção civil.

Será uma utopia lutar contra esse crime?  Certamente. Mas a mensagem do Cristo nao foi uma utopia que tentamos por em pratica todos os dias?

Acredito muito na forca do trabalho conjunto. Afinal, o sonho que se sonha sozinho e somente um sonho; o sonho que sonhamos juntos se torna realidade.

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