Entrevista com José Agnaldo Gomes, autor do livro Do trabalho penoso à dignidade no trabalho.

Por que decidiu escrever sobre o tema?

A escolha do tema decorreu de minhas raízes. Durante os anos da minha adolescência fui cortador de cana-de-açúcar na cidade de Maracaí, interior de São Paulo. Era um trabalho exaustivo para minha pouca idade. Mas a necessidade desconhece por vezes a lógica do culturalmente estabelecido: lugar de criança é na escola. Depois de percorrer um longo caminho entre o canavial e a academia chegou o momento da realização do meu doutorado. Não hesitei, era a chance que tinha para amplificar as vozes de pessoas que trabalham no canavial. As histórias são muitas: de dor, sofrimento, alegrias, conquistas… Experiências que se vive solitariamente e em grupo. Em muitas dessas histórias eu reconhecia um pouco de mim.

Quanto tempo demorou para que a obra estivesse pronta? Quais foram suas fontes mais relevantes de pesquisa?

Foram quatro anos. De modo geral pensamos e falamos a partir da cadeira que estamos sentados, por essa razão, a fonte que sustenta as minhas análises é da psicologia do trabalho. Entretanto é no discurso dos interlocutores que confere a essa pesquisa seu caráter dinâmico e vivo, em especial às narrativas dos boias-frias e do sindicato de Cosmópolis.

Em sua opinião, qual é a parte mais relevante ou especial?

O livro tem uma cadência que conecta as partes. Ele percorre desde a entrada das primeiras mudas da cana-de-açúcar no Brasil, a vida social, política e econômica em torno dela, até a atual situação dos cortadores de cana numa região do interior de São Paulo (Cosmópolis) que serviu como metáfora para uma leitura mais ampla. Mas, objetivamente, a parte mais relevante em meu ver, é o capítulo intitulado “À escuta das narrativas dos canavieiros”.

Qual é a principal ideia que o leitor terá ao acabar de ler o livro?

O reconhecimento de um enorme contingente de trabalhadores que lutam bravamente em torno de uma causa comum: melhoria nas condições de trabalho para uma vida digna e com qualidade de vida no trabalho. Além das histórias pessoais que nos afetam sensivelmente, histórias que nos fazem acreditar na extraordinária capacidade organizativa de pessoas com suas histórias de vida articulada com outras histórias de vida e vontade de viver.

Qual público deseja atingir?

Todos aqueles que depositam esperança no ser humano; pessoas vinculadas à academia, ao trabalho de pastorais, grupos que atuam em sindicatos, trabalhadores e mesmo aqueles que gostam de uma leitura para refletir a partir da realidade social.

Qual foi a vivência ou experiência que o fez escrever este livro?

Revisitar meu passado, ouvir meus ex-colegas dos canaviais com os quais compartilhei sonhos e indignação, memória e gratidão.

Como olha o passado? E o futuro?

Ao passado aceno discretamente, de certo modo, com gratidão. Para o futuro olho com esperança, mas esperança como dispositivo político. Há evidências no presente que apontam para essa capacidade mobilizadora dos que ousam sonhar com um futuro mais justo e equitativo. A utopia, mesmo não alcançável, nos coloca em movimento, nos faz caminhar.

 “Ficar na cana” é, realmente, “ficar em cana”?

 

Enquanto uma sentença penal não. A organização dos boias-frias em defesa e promoção da vida reafirma seu protagonismo nessa história. A recusa em negociar a dignidade aponta para os limites da suportabilidade física e psíquica do trabalho exigido.

Existe uma saída para o trabalho penoso?

O sistema que forja o trabalho penoso deve ser compreendido em sua contradição. Não há infalibilidade de sistema, encontre as rachaduras e as amplie. Eis aí a boa notícia.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s