Entrevista com Jorge Miklos autor do livro Ciber-Religião A construção de vínculos religiosos na cibercultura

Por que decidiu escrever sobre o tema?

Em face de um interesse pessoal, pois o sagrado é o tema da minha vida, e também após uma observação do fenômeno da midiatização da sociedade e das experiências religiosas e além de uma migração dos ritos religiosos para o ciberespaço.

Quanto tempo demorou para que a obra ficasse pronta?

Quais foram suas fontes mais relevantes de pesquisa? A obra é fruto de uma pesquisa de doutorado na PUC-SP em Comunicação e Semiótica, que durou quatro anos. As principais fontes foram sites religiosos que passaram a oferecer a seus consulentes rituais que antes só eram possíveis no âmbito presencial, como velas, terços, orações e pedidos , e peregrinações virtuais. Para a análise do fenômeno foram utilizados teóricos clássicos das Ciências da Religião, como Mircea Eliade e Rudolf Otto, além de teóricos das Ciências da Comunicação como Malena Contrera, Norval Baitello Jr. Paul Virilio e Eugênio Trivinho.

Qual parte é mais relevante ou especial para senhor?

O deslocamento dos rituais religiosos para o âmbito do ciberespaço implica uma alteração dos aspectos tradicionais desses ritos. Em resumo, percebe-se uma mútua contaminação na qual o sagrado é midiatizado e a mídia é sacralizada.

Qual é a principal ideia que o leitor terá ao acabar de ler o livro?

Será possível apreender, por meio da obra, um panorama da civilização pós-moderna cibercultural, suas manifestações socioculturais e o seu alcance sobre os rituais religiosos.

Qual o público o senhor deseja atingir?

A obra destina-se aos interessados nos campos das Ciências da Religião e Ciências da Comunicação, bem com ao público em geral. Embora a obra tenha sido escrita para especialistas, tem uma linguagem de fácil assimilação.

O que significa, no termo amplo da palavra, “midiofagia”?

E como ela interfere em nossas vidas?

Midiofagia é um neologismo inspirado no conceito de Iconofagia do Prof. Dr. Norval Baitello Jr. Partindo da premissa que a técnica é muitas vezes percebida como religião (essa premissa foi indicada pelos teóricos da comunicação Malena Contrera e Eugênio Trivinho) percebeu-se que, na percepção social, as tecnologias comunicacionais são referenciadas como se fossem dotadas de poderes divinos. Um exemplo é o site de busca Google, o qual muitas vezes é percebido e referenciado como onipresente (está em todos os lugares), onisciente (tudo sabe) e onipotente (tudo pode). Certa vez ouvi numa palestra um ilustre sociólogo brasileiro dizer que “o Google é a prova de que Deus existe”. Dessa maneira talhou-se o conceito de “midiofagia”, no qual se busca explicar a capacidade dos meios técnicos de comunicação em “devorar” os atributos divinos.  Obviamente esse fenômeno é cada vez mais recorrente no imaginário social que projeta na técnica atributos humanos e divinos.

Qual foi a vivência ou experiência que o fez escrever o livro?

Em 2004 ou 2005 li em um jornal que a Santa Sé estava analisando a possibilidade em instituir “o confessionário virtual”. Isso não foi levado adiante, pois as maiores empresas de segurança da web consideraram que a proteção ao sigilo não é plenamente segura. Logo depois, os sites católicos foram disponibilizando não apenas informações, mas também a possibilidade de acender velas, e fazer promessas. Pensei que estávamos diante de um fenômeno novo que devia ser estudado à luz de uma linha interdisciplinar entre as Ciências da Religião e as Ciências da Comunicação.

O senhor cita como fonte Joseph Campbell, conhecido por trabalhar a relação entre o místico e o religioso. Nossa ligação com ciber espaço está ligada ao misticismo e à religião?

A técnica comparece no imaginário social como algo fundado no pensamento mitológico. A cibercultura comprova que mitologia arcaica e imaginação ficcional estão presentes no cotidiano de uma civilização cibernética. Um exemplo emblemático desse “casamento” é o escritor de ficção científica William Gibson. O termo ciberespaço estava em seu livro “Neuromancer”, de 1984.  O progresso técnico é um dos eixos por meios dos quais aprendemos a buscar experiências utópicas e distópicas de transcendência.

Qual é o impacto para a religião a popularização do uso da Web e quais serão esses resultados?

Estamos em um mundo e em uma época cujas relações são pautadas e mediadas pelas tecnologias comunicacionais. Nossa época é notadamente marcada pela presença massiva de tecnologias de comunicação no cotidiano humano. A “onipresença” da tecnologia comunicacional acarreta mudanças profundas na sociedade atual. O alastramento da cultura digital e sua difusão potencializaram vários comunicadores instantâneos portáteis nos quais os formatos e as linguagens não param de convergir numa velocidade surpreendente. Se todas as esferas da vida social foram abarcadas pelo tecnológico, a experiência religiosa não ficou ilesa.  Atualmente, várias pessoas, ligadas ou não a instituições religiosas, lançam mão dos meios de comunicação eletrônicos interativos como mediação para experiências religiosas. Velas, terços, velórios, e peregrinações virtuais são alguns exemplos recentes, mas já conhecidos dessa migração da experiência religiosa para o cyberspace. Não há como “prever os resultados”, porém há como atestar o fenômeno no presente. Nesse contexto, as religiões, em suas diversas denominações, são um foco especial para o estudo comunicacional das sociedades contemporâneas.

É possível alcançar e viver a experiência do divino através da web?

Leonardo Boff chama a experiência do divino de transcendência, e afirma que a transcendência é uma busca fundamental do ser humano. Trata-se de uma abertura que nos faz romper barreiras e superar limites. O ser humano é um nó de relações voltado em todas as direções. É se comunicando, realizando essa transcendência concreta na comunicação, que o ele se constrói. A transcendência acontece em muitos lugares antropológicos, em pequenos e grandes acontecimentos, na multidão e na solidão. A web pode ser um meio, mas não um fim.

Sobre o autor:

Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP; graduado em História, mestre em Ciências da Religião. Membro da Comissão de História do Instituto Panamericano de Geografia e História (IPGH) e da Organização dos Estados Americanos (OEA) no Brasil. Integra o grupo de pesquisas Mídia e Estudos do Imaginário (UNIP) e o Centro Interdisciplinar de Semiótica da Culturae da Mídia (PUC/SP).

CIBER-RELIGIÃO A construção de vínculos religiosos na cibercultura

Autor: Jorge Miklos

 Preço R$30,00

Páginas: 160

 Edição: 1ª Ano: 2012

 ISBN: 978-85-7698-143-5

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Uma resposta para Entrevista com Jorge Miklos autor do livro Ciber-Religião A construção de vínculos religiosos na cibercultura

  1. amaro disse:

    Em um mundo profundamente marcado pele estetização e simulação do império da imagem, com argumenta alguns autores o livro do caro professor, joga luz sobre o uso da web no simulacro do cotidiano também presente nas relações religiosas no dia-dia.E aponta para este espaço, como a igreja se atualiza para não perde o monopolio.

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