Entrevista com a autora Maria de Fátima Costa de Paula sobre o livro Reformas e Democratização da Educação Superior no Brasil e na America Latina

1. Por que decidiu escrever sobre o tema?

Porque o livro foi fruto de pesquisa de pós-doutorado realizado na Argentina, em parceria com o Professor Norberto Fernández Lamarra, grande especialista em política de educação superior na América Latina. A pesquisa que coordeno, com apoio do CNPq, trata do tema “Educação superior e inclusão social na América Latina: um estudo comparado entre Brasil e Argentina”.

2. Qual é a principal ideia que o leitor terá ao acabar de ler o livro?
O livro traz um panorama da educação superior no Brasil e na América Latina, na atualidade, através de renomados autores e especialistas. Aborda as recentes reformas da educação superior na América Latina, em especial, no Brasil e na Argentina, apontando as tendências e os desafios do ensino superior, na contemporaneidade. O livro reúne textos sobre políticas de inclusão, democratização do acesso e expansão da educação superior, trazendo abordagens teóricas sobre o assunto, estudos comparados de casos nacionais e experiências institucionais inovadoras sobre a inclusão na educação superior. A discussão sobre essas inovações indubitavelmente contribuirá para a construção de estratégias e políticas inclusivas no âmbito da educação superior.
3. Por que o interesse por educação na América Latina em tempos atuais?
Porque a América Latina é uma das regiões mais desiguais do mundo e a democratização da educação superior é vista como uma alternativa de inclusão das camadas marginalizadas socialmente na educação e no mundo do trabalho, que requer crescentemente pessoas qualificadas para desempenhar as diversas tarefas requeridas pela sociedade, assim como cidadãos participativos na construção de nações autônomas e soberanas.

4. Como os países da América Latina estão desenvolvendo o ensino superior? E o Brasil?
Cada país da América Latina possui características singulares em relação ao ensino superior. O Brasil é um dos países mais privatizados e elitizados com relação ao acesso à educação superior, quando comparado com outros países do mundo e da América Latina, em particular. Por exemplo, em números aproximados, apenas 15% dos jovens entre 18 e 24 anos estão matriculados na educação superior brasileira, 90% das nossas instituições de educação superior são privadas e 75% das matrículas estão no setor privado. A Argentina possui um equilíbrio entre instituições públicas e privadas de educação superior, com pequeno predomínio das últimas, 75% das matrículas estão no setor público, o acesso ao ensino superior é irrestrito, pois não há um funil seletivo para o ingresso na educação superior, como no caso brasileiro, e cerca de 20% dos jovens entre 18 e 24 anos encontram-se matriculados no ensino superior. No que se refere à taxa bruta de matrícula na educação superior (total da população matriculada, independentemente da faixa etária), no Brasil é de 25% e na Argentina é de aproximadamente 50%, ou seja, o dobro do Brasil, o que caracteriza um sistema massificado. Em países como Cuba e Venezuela, a taxa de matrícula líquida na educação superior (jovens entre 18 e 24 anos) é superior a 50%, sistemas considerados universalizados no que se refere ao acesso à educação superior, segundo a classificação de Trow. No caso da Argentina, embora o acesso à educação superior seja massificado, encontramos problemas consideráveis no que se refere à permanência na universidade, com taxas muito elevadas de evasão ao longo do processo.

5. O crescimento de vagas no ensino superior na América Latina e no Brasil tem garantido uma sociedade mais igualitária?
Embora a expansão das vagas na educação superior seja um fenômeno que abrange a maioria dos países da América Latina, nas últimas décadas, essa massificação do ensino superior não tem garantido a democratização do acesso e da permanência no sistema, ou seja, a expansão tem se dado de forma excludente, através de um processo que uma das autoras da coletânea, Ana María Ezcurra, denominou em seu texto de uma inclusão excludente, pois essa expansão não tem garantido, de fato, a inclusão e a permanência das camadas marginalizadas socialmente, daí a necessidade de políticas de ação afirmativa e de políticas de permanência como distintas modalidades de bolsas para os estudantes carentes.

6. Como foram selecionados os estudos e os textos?
Foram selecionados estudos e pesquisas de autores/especialistas renomados sobre o assunto, do Brasil e da Argentina. Pois vários dos textos selecionados problematizam aspectos relacionados ao processo de massificação da educação superior, que tem reproduzido as desigualdades sociais e, em alguns casos, como no Brasil, tem havido uma hipertrofia dessas desigualdades, sobretudo nos cursos superiores de maior prestígio social, ainda muito elitizados. Há também textos que discutem as recentes propostas de reformas para a educação superior na América Latina e as políticas que têm sido formuladas para a democratização da mesma. Há, ainda, textos que abordam experiências institucionais inovadoras sobre a inclusão na educação superior.

7. Qual seria o melhor caminho para uma plenitude do ensino superior na América Latina?
Necessitamos de um aumento dos investimentos dos Estados nacionais no âmbito da educação superior, com intensificação e aperfeiçoamento das políticas de ação afirmativa e de permanência, com abertura das instituições de educação superior para lidar com uma clientela desprovida de capital social, cultural e econômico. Para incluir as camadas marginalizadas socialmente na educação superior e, por extensão, na sociedade e no mundo do trabalho qualificado e valorizado, não basta o aumento dos investimentos dos Estados nacionais no setor, em especial no setor público de educação superior. É necessária uma postura mais propositiva e inovadora das universidades nessa direção, de forma que as mudanças possam se dar institucionalmente, em escala micro, reverberando e amplificando as políticas concebidas para o setor no âmbito macroscópico (de Estado). Ou seja, é preciso que as mudanças ocorram também de dentro para fora e que as universidades assumam a dianteira nessa relação e não apenas se posicionem de forma reativa às políticas elaboradas nos níveis do aparelho de Estado.
8. Entre os textos do livro, a Senhora acredita que algum tenha maior relevância para criar diretrizes a fim de melhorar o ensino superior no Brasil?
Acho que todos os textos são relevantes, seja do ponto de vista da discussão teórica, seja do ponto de vista da comparação (como o meu, que compara os casos Brasil e Argentina), da discussão de políticas para a educação superior, da apresentação de experiências institucionais inovadoras etc.
A democratização da educação superior continua sendo urgente, inconclusa e à espera de políticas, aportes e soluções que se ocupem em profundidade desse problema, tão importante para o alcance do desenvolvimento humano e da justiça social nos países da América Latina. O livro nos aponta alternativas concretas para esse problema, através de um conjunto de textos que traz um diagnóstico bastante completo da situação latino-americana.
9. Ao escrever o livro, você pensa em atingir algum público específico? Qual?
Especialmente o público universitário e os pesquisadores e estudiosos no assunto.
Contatos com o autor:
Autor: Maria de Fátima Costa de Paula
E-mail: mfatimadepaula@terra.com.br

As informações que estão nesta entrevista se tornarão públicas no blog http://www.editorasantuario.wordpress.com

Nicolau Kietzmann Goldemberg
DGNK Assessoria de Imprensa
11- 3070-3336

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