Entrevista com Melissa de Miranda, autora do livro INÉRCIA: A GERAÇÃO Y NO LIMITE DO TÉDIO

Por que decidiu escrever sobre o tema?

Sempre fui intrigada pelo comportamento humano; acho interessante essa dinâmica entre o contexto no qual a pessoa nasce ou é criada e o desenvolver da sua subjetividade. Mais intrigante ainda é perceber como determinados elementos podem afetar em comum toda uma geração, como comportamentos padrões podem ser detectados em pessoas que cresceram em casas completamente diferentes, cidades diferentes, indo a escolas diferentes. O comportamento da minha própria geração, ao mesmo tempo, sempre foi tema de discussão entre mim e aqueles meus amigos mais entusiasmados com sociologia, com tardes filosóficas. Entre uma conversa e outra, percebi que muitos dos sentimentos que eu mesma tinha – como a carência por uma unificação, por um movimento, uma causa e o próprio imediatismo – eram compartilhados pelos meus amigos e outros jovens com quem tive contato. Isto me instigava. Então, numa conversa com a minha irmã, que é psicóloga e também integrante da Geração Y, surgiu efetivamente a ideia de realizar um trabalho jornalístico em cima do tema para dar voz aos jovens, ao que muitos de nós sentimos, explorar os contextos e as consequências dos mesmos.

Qual é a principal ideia que o leitor terá ao acabar de ler o livro?

Acho que cada um vai concluir de uma forma. O que eu espero, com o livro, é fornecer uma perspectiva sincera e “de dentro para fora” da juventude atual. O ideal seria que integrantes de outras gerações terminassem de ler o livro sentindo que compreendem melhor a Y. Não quero gerar polêmica, não quero que pais terminem de ler o livro e tranquem os filhos em casa, rs. Não acho que a Geração Y esteja pedindo socorro ou em vias de se meter em grandes furadas – quer dizer, isto talvez alguns até estejam, mas tomando por base o que notei ao longo das entrevistas garanto que são jovens perfeitamente conscientes. Mais ainda, são jovens capazes. E que estão crescendo: esta é a geração que está entrando agora no mercado de trabalho e mudando muito a forma de atuar nas empresas, nos relacionamentos, nas estruturas sociais. O objetivo é mostrar uma série de implicações recorrentes que o contexto sociopolítico desta geração e seu consequente tédio podem ter. Há muitos aspectos que permeiam cada geração e o meu objetivo é contribuir com uma perspectiva mais comportamental, mais intrínseca. Já ouvi de diversos leitores, no caso dos meus contemporâneos, que se sentiram contemplados pelo livro, que puderam se enxergar ali, nos depoimentos, ou mesmo de amigos e conhecidos. É legal gerar este tipo de identificação!

Por que escrever um livro sobre esse assunto?

Bom, o tema não é nenhuma novidade… aliás, livros sobre a Geração Y são lançados aos montes, convenhamos. Contudo, a maioria é voltada à entrada destes jovens no mercado de trabalho! Muito se fala sobre a forma de trabalhar ou de empreender da Geração Y, a sua facilidade com os meios digitais, os seus conflitos com hierarquia, a nãofidelização às empresas, etc. O comportamento em si é bem pouco explorado e as únicas publicações que encontrei, confesso que senti certa indisposição em ler. Mas isto tem a ver mais com a abordagem do que com o conteúdo! Para mim – e acredito que para muitos –, não é lá muito interessante ler o que outra geração escreveu sobre a sua própria. É como ouvir seus pais usando gírias atuais, que você usaria entre amigos, e um tanto fora de contexto. Quis, então, escrever um livro que não focasse no ambiente de trabalho – estes tem aos montes e muito bem escritos, por sinal, como os do Tapscott – e que traduzisse uma conversa sincera de jovem para jovem, sem censura… mas que também não ficasse forçado, entende? Quis escrever algo que eu mesma tivesse interesse em ler, que fosse achar legal, que de fato retratasse o cotidiano jovem atual, que não fosse “tonto” demais.

Ao escrever o livro, você pensa em atingir algum público específico? Qual?

Principalmente os jovens, escrevi pensando no que a minha própria geração gostaria de ler. Então, o livro é para eles. Todavia, entendo que muitos pais ou simplesmente integrantes de outras gerações, por diversos motivos, tenham interesse em ler e acho isto incrível. É uma forma de compreender, de aproximar gerações. Já teve casos de filhos que compraram o livro para si, depois passaram para os pais lerem e aí vieram me contar entusiasmados. Fico feliz com os diálogos que esta leitura pode gerar e acho que o livro pode interessar a todos os públicos: todos estamos, de uma forma ou de outra, em contato com a Geração Y. O tema é atual, está vivo, a juventude está aí!

O livro é um livro-reportagem?

Sim. O livro é resultado de uma série de entrevistas realizadas com diversos jovens e entrelaçadas entre si. Explicando melhor: é um livro-reportagem que traz um conjunto de conversas, de jovem para jovem, sobre o contexto da sua geração e as implicações do tédio no seu cotidiano; os depoimentos são costurados de maneira a fluir de acordo com o tema, mas tudo parte da voz dos jovens, do que eles pensam, do que eles vivenciam, do que eles sentem. Não o que uma terceira pessoa de outra geração acha que eles sentem, são relatos diretos e bastante intensos.

Quanto tempo demorou para colher e organizar as informações?

Foram três meses de entrevistas. É um processo um tanto demorado, porque para chegar a este tipo de depoimento é preciso aproximação, tempo, até que a pessoa se sinta confortável em compartilhar as suas experiências e impressões mais pessoais. Alguns dos entrevistados se identificaram imediatamente comigo, principalmente por eu ser da mesma geração que eles, e não tiveram problema algum em falar sobre qualquer um dos temas! Não é uma geração que tem muito problema em falar sobre a sua intimidade, aliás, frequentemente fala pelos quatro cantos digitais, rs. Contudo, com alguns deles ou determinados trechos ou considerações só consegui lá pela quarta ou quinta conversa, dependendo da pessoa ou da complexidade do assunto. Por exemplo, às vezes o entrevistado não tinha inibição alguma para falar sobre sua sexualidade, mas o caso mais interessante para o livro ou ainda uma reflexão detalhada sobre determinada experiência só vinham numa segunda ou terceira conversa. Foi um processo bastante divertido e extremamente interessante.

Você se pautou antes? Houve algum estudo com especialistas anteriormente ao início ou mesmo durante o trabalho?

Sim. Li bastante, bastante mesmo. Muita coisa já tinha lido antes, outras procurei durante o processo de entrevistas. Foi fundamental, ao meu ver, porque quis entender melhor como funciona a sociedade, as gerações, o pensamento, comportamento humano… conversei casualmente com alguns psicólogos e principalmente com os jovens, para captar as suas impressões, entender o que havia de comum no seu cotidiano ou na sua forma de ver a vida e o que poderia ser explorado no livro. Li alguns livros também sobre técnicas de entrevista e livro-reportagem. Há uma relação das obras no final do livro, aliás, que recomendo.

Você organizou a pauta por assunto ou os temas foram sendo descobertos durante o trabalho?

Alguns eu definitivamente queria abordar, principalmente a dependência da mídia, a virtualização do cotidiano e a ruptura com o formato “tradicional” de relacionamentos. Outros, como os vícios, estavam na pauta, mas acabaram se expandindo muito mais do que o esperado na minha conversa com os entrevistados. Alguns tópicos, como as drogas virtuais, surgiram em uma entrevista e acabei indo atrás de outras pessoas que pudessem contribuir com este tema. Foi interessante.

Por que decidiu ocultar os nomes das fontes?

As primeiras pessoas que entrevistei, me perguntaram repetidas vezes onde ia sair, como seria divulgado, se precisava ser o nome completo, extremamente preocupadas com a sua imagem – tema, aliás, abordado no livro. Conversando com elas, percebi que se sentiam automaticamente mais à vontade se eu lhes prometesse um pseudônimo e acabavam compartilhando mais. Acabei optando por ocultar o nome de todas e buscar um conteúdo mais sincero, sem autocensura e acho que o resultado foi excelente. Acabou sendo até divertido, muitos dos entrevistados escolheram os próprios “nomes” e brincaram com referências a músicas ou livros que gostam. Como, por exemplo, “Lúcia” que é uma referência à canção “Lucy In The Sky With Diamonds”, pois a entrevistada era fã de Beatles.

Você teve alguma preocupação em escolher as fontes por perfil  socioeconômico e geográfico?

Não, mas como utilizei muito a própria rede de jovens (conectada como nunca, rs), as entrevistas não saíram tanto do cerco das metrópoles e a maioria é de classe média ou média alta, alguns da classe alta. Também foi uma questão prática: eu preferia entrevistá-los onde se sentissem mais confortáveis, então ia pessoalmente a seus apartamentos, a suas casas, para criar um ambiente mais descontraído. É importante ressaltar que o livro não tem a pretensão de refletir a Geração Y em sua totalidade: isso não existe. Seria absurdo dizer que todos os jovens são iguais, pois não são. É como pensar que todo mundo nos anos 70 era hippie! Não, não era – mas ainda assim foi um sentimento, uma forma de pensar, que afetou diversas pessoas e marcou uma geração. Já a nossa é afetada – e este é um dos pontos defendidos não apenas no meu livro, mas em diversos outros – pelo excesso de informação e pela rapidez do mundo tecnológico. Isto, claro, vai ter um impacto menor em jovens sem acesso ou interesse pelo universo digital. Não podemos, contudo, ignorar a influência que este “momento” tem em diversos outros jovens, que compartilham formas bem semelhantes de levar a vida e compreender o mundo.

Como você teve contato com as pessoas da geração Y?

Por ser também a minha geração, eu já dispunha de muitos contatos de antemão. Alguns surgiram durante as entrevistas, se eu manifestava mais interesse por este ou aquele assunto, a pessoa logo me indicava um amigo ou conhecido que tinha tal pensamento ou havia tido determinada experiência, me arranjavam seu MSN, o celular, me colocavam em contato. Todos se mostraram muito entusiasmados e dispostos a ajudar com o conteúdo do livro, acreditavam nesta possibilidade de mostrar o que é, de fato, a sua realidade e se moviam para isto: é uma verdadeira rede de jovens. E a internet facilita muito, claro. Soube fazer bom uso das mídias sociais e dos seis graus de separação, rs.

Você vive no grupo da geração Y. Você passou por algumas das situações que descreve no livro?

Inevitavelmente. Sou absolutamente dependente de tecnologia, acho que além do saudável, rs. Trabalho com mídias sociais, fico o tempo inteiro tentando manejar o excesso de informação. Acho que, de tudo que é relatado na obra, o que mais me afeta é o imediatismo. Foi um dos sentimentos, combinado ao extremo tédio e à saturação, que me motivaram inicialmente a buscar outros jovens que vivenciassem o mesmo e a explorar o assunto em um livro.

No livro você descreve a geração Y por casos de tédio, desvalorização de moral etc. Mas durante as entrevistas você não conseguiu captar algo de positivo nos entrevistados?

Aí é que está: depende de como você interpreta o conteúdo do livro. Tenho notado que a interpretação final dos leitores mais velhos é, geralmente, negativa com relação aos relatos; enquanto a dos mais jovens é composta de elementos positivos e outros negativos. Eu, integrante desta geração, me encaixo na segunda análise. Procurei balancear os depoimentos com o que acreditava serem exemplos positivos e negativos de todos os temas tratados no livro, sem fazer juízo de valor. Da mesma forma que existem depoimentos extremamente negativos sobre drogas, por exemplo, há os que fazem um uso que consideram positivo – e digo isto sem querer discutir legalização ou não legalização. Um dos capítulos mais positivos, para mim, é o que aborda relacionamentos. Acho interessante como os jovens desta geração estão quebrando com a ideia de que se precisa de alguém para ser feliz, redefinindo o seu conceito de “relacionamento saudável” e questionando os padrões sociais, buscando por si mesmos o que consideram melhor para eles. São jovens bastante conscientes e práticos, acho admirável. Temos que pensar que esta é a geração que teve acesso ao mundo; o conhecimento na internet não tem limites, você tem acesso às mais diferentes pessoas e culturas e “mundos”, e encontra identificação, compreensão. Você vê jovens assumindo a sua sexualidade cada vez mais cedo, por exemplo, porque se sentem cada vez mais confiantes em si e contemplados por outros, mesmo que apenas no universo virtual. Este contato com o diferente é capaz de gerar tremendo conhecimento e aceitação. É uma característica extremamente positiva! E isto está transmitido no livro. Poderia citar ainda o caráter multimídia e atuante dos jovens que cresceram não no mundo da TV – em que se assiste a tudo passivamente –, mas no universo digital, em que são capazes de produzir e divulgar conteúdo. Isto partindo de uma geração entediada com tudo, esgotada, mas muito crítica e disposta. Fico entusiasmada para ver o que os Y’s vão criar!

Você está satisfeita com o trabalho final do texto? Mudaria algo?

Com certeza, não poderia estar mais orgulhosa do livro. Estou empolgada para que leiam e mais ainda com a possibilidade de gerar discussão. Não mudaria nada, mas acho que, principalmente por tratar de mídias sociais e tecnologia, alguns depoimentos envelhecem numa velocidade maior do que a normal em reportagens. Redes como o Orkut ou aplicativos como o Buddypoke, que estavam em alta na época das entrevistas, hoje em dia já se tornaram obsoletos. Foram substituídos massivamente pelo Facebook e novos widgets, novos aplicativos, novas “febres do momento”, entende? Mas isto não muda a essência do que está sendo falado, apenas a plataforma, digamos. E é recorrente, não há como evitar, é um ciclo interminável e característico da internet…

Você mudou depois de todo o trabalho?

Acho que, acima de tudo, adquiri muito conhecimento. Entrei em contato com jovens fantásticos, gente realmente crítica e interessante da minha geração. É gostoso. E influenciou muito a minha forma de escrever e de entender esta geração. Acabei adotando muito das teorias dos meus entrevistados, com as quais eu concordava, na minha própria maneira de pensar.

SOBRE A AUTORA:

Formada em Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, pela PUC – Campinas e autora do livro “Inércia – A Geração Y no limite do tédio” pela Editora Idéias & Letras, obra vencedora do 2° lugar do Prêmio Bosch de Jornalismo. Trabalhou como editora e repórter online da EPTV – Globo, responsável pela editoria de “Lazer & Cultura”, e participou ativamente no processo de articulação do grupo EPTV.com em redes sociais; encarregada ainda da criação e manutenção do blog jornalístico “Geração Y”. Atuou como freelancer para a Revista ProXXIma e como repórter online para a Revista Brasileiros, com enfoque no projeto “Digitais”. Na emissora internacional Deutsche Welle, em Bonn (Alemanha), foi responsável pela produção de conteúdo para a redação brasileira e integrou o projeto “Global Ideas”, em parceria com a TV Cultura, como bolsista da Fundação Heinz-Kühn (Düsseldorf). Atualmente, atua nas mídias sociais como articuladora de rede da Radium Systems (RS), parceira do Instituto Peabirus, em São Paulo. No projeto As Três Gêmeas, cria e coproduz conteúdo em stop motion.

CONTATOS COM A AUTORA:

Autora: Melissa Miranda

Telefone: (19) 9741-4491

Email: mel-miranda@hotmail.com

Skype: meeelms

Nicolau Kietzmann Goldemberg

DGNK Assessoria de Imprensa

11- 3070-3336

11 – 8273-6669

http://www.dgnk.com.br

http://www.editorasantuario.wordpress.com

http://www.editoraideiaseletras.wordpress.com

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3 respostas para Entrevista com Melissa de Miranda, autora do livro INÉRCIA: A GERAÇÃO Y NO LIMITE DO TÉDIO

  1. FRANÇOISE disse:

    parabens sobrinha!

  2. Livro sensacional, acabei envolvida pelo texto e o mais legal é que é diferente de tudo que já li sobre a geração Y até então. Hoje mesmo li uma matéria, em uma revista, onde uma industria farmacêutica falava sobre os jovens da geração Y que fazem parte do seu quadro de funcionário.
    Enfim, parabéns pelo livro e pela entrevista.

  3. Míriam Tavares disse:

    sou psicóloga e minha sobrinha me emprestou seu livro….adoreiiiiiiiiiii.trabalho com adolescentes q vivenciam tal polemica.Seu livro tb abriu as portas de uma nova construçao de vida com a relaçao de trabalho para o jovem recem formado.parabéns

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