Entrevista com Lucélia Elizabeth Paiva, autora do livro A Arte de Falar da Morte Para Crianças

Por que decidiu escrever sobre o tema?

A morte é um tema presente em nosso cotidiano, porém negado. Por isso, faz-se presente e necessário.

Sou psicóloga com atuação clínica e hospitalar. Trabalho com questões de crise e emergência, morte, perdas e luto desde 1984.

Na verdade, quando fiz o Mestrado no Hospital A.C. Camargo, ao entrevistar médicos que se deparam com a morte em seu cotidiano profissional, ao trabalharem com pacientes com câncer avançado e em fase terminal, pude constatar a dificuldade, falta de preparo para trabalhar com a temática, além do sofrimento emocional envolvido.

Isso me fez crer na importância e necessidade de desenvolver um trabalho em relação à morte. No entanto, apesar de julgar importante e necessário, acredito que falar da morte nos cursos de formação na universidade não seja o suficiente. Acredito na necessidade de se introduzir o tema da morte na formação do indivíduo, ou seja, ao longo da vida, desde a mais tenra idade.

Por isso, resolvi pensar em falar da morte para/com as crianças.

Qual é a principal ideia que o leitor terá ao acabar de ler o livro?

Acredito que o leitor possa perceber a importância de não mentir e nem ocultar o tema morte das crianças, além de ter um material para reflexão sobre a criança, a morte, a educação e a literatura infantil.

Por que escrever um livro sobre esse assunto?

Com o objetivo de fazer com que os adultos (pais, educadores, profissionais da saúde) atentem para a necessidade e possibilidade de começar a valorizar a comunicação com a criança, nas questões existenciais.

Ao escrever o livro, você pensa em atingir algum público específico? Qual?

Profissionais das áreas da saúde e da educação, além de pais, educadores, contadores de histórias… Todo ser humano interessado em pensar a morte e, claro, a vida.

Consequentemente, desejo atingir, também, nossas crianças.

O livro é o resultado de uma tese?

Sim. Esse livro é fruto da tese de doutorado defendida no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (2008).

Logo no início percebe-se que suas filhas têm forte envolvimento em seu trabalho. Elas fizeram parte da pesquisa? Quais formas de incentivos elas propuseram em seu livro?

Na verdade, minhas filhas fizeram parte da minha trajetória, mas não da tese.

Eu sempre utilizei recursos infantis para minha comunicação com minhas filhas, inclusive as histórias infantis.

Minhas filhas sempre gostaram muito de ler e sempre me acompanham, com gosto, às livrarias.

Durante o meu doutorado, minhas filhas tinham muito interesse em saber como eu utilizava os livros infantis, pois elas tinham noção de como eu utilizei/utilizava com elas e conheciam também os livros que eu utilizei para a pesquisa.

Toda vez que eu apareço com algum livro infantil novo em casa, elas querem conhecer.

Desde pequenas, sempre tiveram acesso aos livros infantis que eu utilizava em meu trabalho. Afinal, são livros infantis.

Eu sempre comprei muitos livros para elas. Sempre leram muito.

Têm muita curiosidade pelo novo e cada vez que se deparavam com alguma leitura de temas existenciais, recomendavam-me.

Juliana, minha primogênita, gosta muito de animes e mangás. Chegou a me indicar algumas histórias nesse estilo que abordam o tema da morte.

Juliana e Giovanna são ilustradoras da minha tese de doutorado. As mesmas ilustrações contidas no livro.

Juliana participou mais com os desenhos e Giovanna mais com seleção de poesias, frases e trechos extraídos de livros e filmes que tratassem do tema em questão.

Elas influenciaram na sua carreira?

Eu sou apaixonada pela literatura infantil e utilizo esse recurso em meu trabalho antes mesmo de ser mãe.

Elas não influenciaram em minha carreira, mas sempre participaram muito.

Sempre utilizei esse recurso para “conversar” com elas sobre os mais variados temas, inclusive morte, adoecimento, separação, luto…

Você seleciona 36 livros infantis que abordam a morte, que são listados no fim. Como você chegou a essa lista e qual é a importância dos livros?

Os livros selecionados são apenas alguns dos quais conheço e/ou utilizo. Procurei selecionar livros que abordam o tema da morte das mais variadas formas (dando explicações para a morte, como fazendo parte do ciclo vital, abordando morte na velhice, morte de pai, de mãe, de criança, de avós, de bicho de estimação…).

O seu livro deve ser lido para orientação paterna em que momento (educação em geral ou só quando existem momentos difíceis)?

O livro pode ser lido por pais, cuidadores, educadores, profissionais da saúde e da educação – a qualquer momento.

De início, é feita uma ampla visita pela literatura especializada em crianças, morte, luto, educação, literatura infantil e bliblioterapia.

Exploro 36 livros para crianças que abordam o tema da morte de diversas formas, fazendo uma breve apresentação de cada um.

Em relação à pesquisa da tese, abordo as questões relacionadas aos educadores, à escola e como a morte aparece e é trabalhada/abordada no contexto escolar.

Dedico uma parte do livro à dinâmica dos educadores, nos encontros realizados nas 5 escolas participantes do estudo, mostrando a importância de se ter um espaço de acolhimento, compartilhamento e de escuta para trabalhar com temas existenciais – complexos para serem abordados com as crianças.

A biblioterapia pode ser interessante em estudos de grupos infantis? Ela faz sentido para os pais usarem para seus filhos?

Sim. A biblioterapia pode ser um recurso muito interessante para abordar temas existenciais (entre eles, a morte) não só com as crianças.

Eu, particularmente, utilizo a biblioterapia com todas as idades, inclusive com idosos, para trabalhar temas diversos.

Costumo promover workshops temáticos para trabalhar temas como relacionamento, perdas, luto, separação, velhice, bullying, doença/adoecer, reabilitação, oncologia, morte, utilizando o recurso da biblioterapia.

BIBLIOTERAPIA

Palavra originada do grego:

Biblion: todo tipo de material bibliográfico ou de leitura

Therapein: tratamento, cura ou restabelecimento

A leitura é uma atividade que, além do desenvolvimento cultural e de formação do cidadão, pode desempenhar um papel terapêutico.

A biblioterapia pode ser aplicada tanto num processo de desenvolvimento pessoal, educacional, como num processo clínico-terapêutico.

É um processo interativo que se utiliza da leitura e outras atividades lúdicas como coadjuvantes, inclusive em tratamentos de pessoas acometidas por doenças físicas e mentais. Pode ser aplicada na educação, na saúde e reabilitação de indivíduos em diversas faixas etárias.

As histórias podem levar a mudanças, pois auxiliam o indivíduo a enxergar outras perspectivas e distinguir opções de pensamentos, sentimentos e comportamentos, dando oportunidades de discernimento e entendimento de novos caminhos saudáveis para enfrentar dificuldades.

Pode ser aplacada no contexto escolar, no processo de hospitalização e de sociabilização.

Abrange quatro estágios:

– O leitor/ouvinte se envolve com a trama e/ou com o personagem da história (envolvimento), promovendo a identificação. Ao identificar-se, pode reconhecer e vivenciar de forma vicária seus sentimentos característicos. Os problemas resolvidos com sucesso farão com que o indivíduo realize uma tensão emocional associada aos seus próprios problemas, atingindo a catarse. Desta forma, pode chegar ao insight, que leva o leitor/ouvinte a aplicar o que aconteceu na história à sua vida pessoal.

A semelhança do problema da história leva à aproximação da vida pessoal, tornando-o acessível, atingindo uma etapa final, que seria a universalidade, onde se podem compreender outros problemas similares.

Para que esse processo se realize com sucesso é importante a seleção criteriosas do material a ser utilizado, a apresentação e definição da duração do processo e dos materiais, assim como o acompanhamento através da exploração emocional dos materiais e o compartilhamento das experiências.

É importante ter em mente que, ao ler um texto, o indivíduo constrói um texto paralelo, intimamente ligado às suas experiências e vivências pessoais, o que o torna diferente para cada leitor. Assim, conceitos podem ser transmitidos, mas os significados são pessoais e instransferíveis.

Através da biblioterapia, o indivíduo pode ser ajudado a ganhar distanciamento de sua própria dor e expressar seus sentimentos, ideias e pensamentos, o que pode possibilitar uma percepção mais aguçada de sua própria situação de vida, desenvolvendo uma forma de pensar criativa e crítica, além de diminuir o sentimento de solidão (de sentir-se único a se sentir daquela forma), validar seus sentimentos e pensamentos, desenvolver empatia com outras pessoas (quando a biblioterapia é aplicada em grupo). Isso favorece a diminuição da ansiedade.

No entanto, é importante que se perceba que a biblioterapia não é uma fórmula mágica, nem uma intervenção única para promoção de mudanças. É uma ferramenta ou recurso terapêutico que faz parte de um processo.

A biblioterapia constitui-se em uma atividade interdisciplinar, podendo ser desenvolvida em parceria com a Biblioteconomia, a Literatura, a Educação, a Medicina, a Psicologia, a Enfermagem…, que tem como objetivo a troca de informações entre as áreas relacionadas.

O resultado terapêutico ocorre pelo próprio texto, sujeito a interpretações diferentes por pessoas diferentes.

Desta forma, a biblioterapia constitui-se em um meio possível para se abordar temas existenciais (como a morte, por exemplo) com crianças tanto no contexto da saúde como da educação.

(Texto extraído de http://www.luceliapaiva.psc.br, elaborado por Lucélia Elizabeth Paiva, a partir de sua tese de Doutorado: A arte de falar da morte: a literatura infantil como recurso para ser abordado com crianças e educadores).

A explicação religiosa é válida para uma criança?

O importante é que em qualquer explicação para a criança, o adulto seja objetivo, claro, e aborde o necessário para que ela compreenda o que é possível (de acordo com a idade).

Usar explicações como “foi para o céu”, “virou estrelinha”, “Papai do céu chamou”… podem confundir a criança no entendimento à morte.

Se a religião é um fator importante para a família abordar, que seja claro, objetivo, para não confundir a criança. Existem livros que explicam a morte e como ela é vista por diferentes culturas e diferentes religiões.

Quais são as dicas para inserir na educação infantil o tema da morte?

Não se deixar de falar da vida e da morte.

A morte pode ser falada com amor, com humor, como ciclo da vida… não precisa ser abordada apenas com a dor da perda.

Não se deve negar a morte! Não se deve negar a morte que há na vida!

Pode-se falar da morte em aulas de:

– Português (com literatura que aborde a temática);

– História (quando se fala das guerras e das pestes, por exemplo);

– Ciências (é sempre dito que o ser humano nasce, cresce, se reproduz e morre. Fala-se sobre a reprodução, o nascimento, o desenvolvimento humano, mas não se fala sobre a morte – o que é o morrer. Passa-se por cima dessa etapa. Apenas é citada. Falar da morte quando se aborda algumas doenças);

– Filosofia, Teologia e Sociologia (para promover reflexões sobre a vida e a morte, sobre como a morte é vista nas diferentes culturas e religiões, além de reflexões sobre o viver e o morrer).

Para isso, contamos com literatura diversa, inclusive infantil.

O importante é que se possa promover reflexão e diálogo a respeito. Para isso, é necessário que o adulto que esteja acompanhando a criança (professor, pais…) sintam-se à vontade para isso e conheçam bem o material que irão utilizar.

Na pesquisa realizada no doutorado (que originou esse livro), ficou evidente o quanto o espaço de reflexão e de compartilhamento são importantes para os educadores.

É necessário que se promova esses espaços com os adultos para que possam se sentir à vontade para proporcionarem esses espaços às crianças.

Pode-se falar sobre vida e morte, também, na contação de histórias – de forma simples, na gratuidade.

Existe uma idade mínima para o entendimento da morte?

A literatura especializada (principalmente os estudos de Wilma Torres) mostram que a aquisição do conceito de morte pela criança depende não só do desenvolvimento cognitivo, mas também de suas experiências sociais e emocionais.

Esses estudos nos mostram que a criança adquire o conceito de morte quando consegue entender a morte em três atributos básicos:

– a universalidade (que todo ser vivo vai morrer um dia, inclusive as pessoas que ama e ela própria);

– a irreversibilidade (que quando a pessoa morre, ela não volta mais. Não é possível des-morrer);

– a não-funcionalidade (que quando a pessoa morre, seu corpo todo para de funcionar: não respira mais, o coração para de bater, não pensa mais, não sente mais frio e nem calor, nem fome, não fica triste e nem feliz).

Isso, em tese, ocorre entre os 5 e 7 anos, mais ou menos. Como foi dito anteriormente, vai depender do desenvolvimento cognitivo da criança, mas também, de questões relacionadas às suas experiências sociais e emocionais.

Crianças que vivem em ambientes onde ocorrem muitas mortes, por exemplo, em situações de violência, podem adquirir o conceito de morte mais cedo. Assim como crianças que já sofreram a perda de pessoas próximas (e mesmo de animais de estimação) podem entender a morte mais cedo, pela sua própria vivência.

A morte deve ser encarada com leveza e ganhar histórias fantasiosas ou uma criança está pronta para vivenciar uma realidade?

As crianças vivenciam perdas no seu cotidiano. Nós, adultos, é que, geralmente, não valorizamos tais situações.

Exemplo: Para a criança, quando ela vem angustiada, chorando, porque um brinquedo seu quebrou, muitas vezes, não entendemos que aquilo que quebrou não é apenas um simples brinquedo, mas sim um “companheiro” seu nas suas brincadeiras – nas quais ele simboliza o seu mundo, a sua vida.

Quando não damos a devida atenção a esse sofrimento, porque encaramos como “só” um brinquedo, p. ex., estamos, muitas vezes, desqualificando o afeto.

Ao longo da vida, vivenciamos inúmeras perdas, as chamadas “mortes simbólicas”. E a forma como lidamos com tais perdas vai interferir na forma como lidamos com a morte concreta.

SOBRE A AUTORA:  (COLOCAR UM MINI CURRÍCULO)

Currículo do Sistema de Currículo Lattes.

CRP 06/16.410

Sou psicóloga com atuação clínica, hospitalar e educacional; em situações de crise e emergência, morte, perdas e luto, há mais de 20 anos.

Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano, pela USP (2008), com a tese A arte de falar da morte: a literatura infantil como recurso para abordar a morte com crianças e educadores.

Mestre em Ciências (Área de concentração: Oncologia), pela Fundação Antônio Prudente – Hospital A. C. Camargo (2000), com a dissertação Atitudes de médicos na relação com pacientes com câncer avançado e em fase terminal em um Hospital Geral e em um Hospital de Especialidade.

Psicóloga com atuação hospitalar, com intervenções psicológicas nas clínicas de Cirurgia Geral e Cirurgia do Aparelho Digestivo, Hematologia e Transplante de Medula Óssea, Pronto-Socorro e Unidades de Terapia Intensiva do Instituto Central do Hospital das Clínicas/FMUSP (de 1985 a 1999).

Participa na formação de profissionais das áreas da saúde e da educação através de cursos, palestras, workshops e grupos de estudos.

Professora universitária.

Docente, ministrando cursos sobre Tanatologia, Biblioterapia e a função humanizadora e terapêutica da literatura infantil.

CONTATOS COM A AUTORA:

(11) 3868-4102 – consultório

(11) 9962-9568 – celular

lucelia_paiva@uol.com.br

www.luceliapaiva.psc.br

Dados Técnicos:

Autor: Lucélia Elizabeth Paiva

Editora: Idéias & Letras

Preço R$38,00

Páginas: 336

Edição: 1ª

Ano: 2011

ISBN: 978-85-7698-103-9

Nicolau Kietzmann Goldemberg

DGNK Assessoria de Imprensa

11- 3070-3336

11 – 8273-6669

http://www.dgnk.com.br

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