Entrevista com Frank Usarski autor do livro O Budismo e as Outras- Encontros e Desencontros Entre as Grandes Religiões Mundiais

Por que decidiu escrever sobre o Budismo e comparar a outras religiões?

Já antes da minha chegada ao Brasil tinha estudado o Budismo particularmente do ponto de vista da sua recepção e divulgação na Alemanha e em outros países europeus. Desde então há diversos contatos com colegas interessados em temas afins. Um deles é o Professor Udo Tworuschka, Universidade de Jena, Alemanha, que me convidou a fazer parte de uma coletânea sobre a percepção que cada uma das “grandes” religiões tem sobre as outras. Assumi um artigo sobre a visão do Budismo sobre o Hinduísmo, Judaísmo, Cristianismo e Islã. Levantei muito material do qual apenas uma pequena parcela cabia no ensaio formalmente limitado. Um dos motivos de retomar o assunto e elaborar um texto mais amplo tem a ver com meu desejo de não deixar esse rico material desaparecer em uma gaveta.

Já que o Budismo não é uma religião, o que ele é? Por que o Sr. acha que é visto como religião?

Há um determinado público ocidental que acha chique afirmar que o Budismo é tão atraente porque não é uma religião, mas uma filosofia de vida. Essa avaliação está em forte tensão com as afirmações da Ciência da Religião que trabalha com um conceito de religião que transcende as associações etnocentristas orientadas em manifestações religiosas dentro da tradição judaico-cristã. Aqui não é o lugar para apresentar detalhadamente um conceito da religião que faz justiça da multiplicidade em que a religião tem se articulado no decorrer da história. Simplificando a resposta pode-se dizer que o Budismo é uma religião por defender uma cosmovisão que implica esferas da existência empiricamente não verificáveis (inclusive a afirmação da existência de deuses, espíritos e outros seres transcendentais) e por propagar um conceito de salvação, algo que a filosofia não possui. Também não faltam outros elementos tipicamente associados à religião como uma ética religiosa, formas organizacionais, rituais etc.

Por que o Budismo criou uma imagem de ser uma religião monolítica e pacífica? Quais são os fatos que comprovam o contrário?

Muitos veem o Budismo como a mais pacífica entre as grandes religiões. Não duvido que a doutrina budista tenha esse potencial. Por outro lado, nenhuma está imune contra tentações “mundanas”. No caso do Budismo vale lembrar, por exemplo, da instrumentalização de instituições budistas locais por parte do governo japonês em função da perseguição violenta de cristãos no país a partir de 1631. Mas ao longo da história o budismo apresentou-se como uma religião, sobretudo norteada pela ideia de convivência pacífica.

Qual é a principal ideia que o livro tenta passar para o leitor?

Depois de um levantamento do repertório doutrinário e prático do Budismo, considerado como base de qualquer relacionamento inter-religioso, serão abordadas três dimensões constitutivas dos encontros e desencontros entre as religiões. A reflexão inicia-se com uma sinopse de cenários históricos paradigmáticos da versatilidade das circunstâncias sob as quais o Budismo teve que se relacionar com as quatro outras religiões mundiais. Em um segundo momento são apresentadas as figuras argumentativas e posturas retóricas das quais representantes do Budismo se apropriam em situações do intercâmbio religioso. O último passo reside na identificação dos temas tipicamente articulados por budistas em diálogos intrarreligiosos.

O capítulo 4 é muito interessante. Por que as escolhas das religiões hinduísta, cristã e judaica para serem comparadas ao Budismo?

Sendo uma religião “universal” espalhada pelo mundo inteiro, o Budismo tem tido contato com um número enorme de crenças e práticas. É impossível dar contra a essa complexidade em um único livro. Por isso, o trabalho atual se concentra no intercâmbio entre as religiões frequentemente avaliadas mais importantes no nível global nos pontos de vista histórico, estatístico e geográfico.

O Cristianismo é a maior religião no Brasil. Para o leitor do livro quais são os fatos mais relevantes em comparação ao Budismo?

Pulando uma série de aspectos elaborados no referente capítulo do livro pode se dizer que o Budismo defende um conceito impessoal da “última realidade” simbolizado por diversas expressões entre eles a noção śūnyatā ou “vacuidade”. Portanto, budistas têm dificuldades com a fé cristã em um Deus pessoal. Ao mesmo tempo questiona o status divino atribuído ao Jesus Cristo uma vez que essa caracterização ultrapassa sua apreciação “apenas” como um mestre espiritual. Além disso, uma retrospectiva revela que determinados tópicos ganharam uma relevância maior em determinados momentos históricos. Por exemplo, há fontes que demonstram que budistas não se conformam com uma doutrina que se apresenta como uma “verdade absoluta e interna” e exige dos seus fieis uma “obediência cega”. Em contrapartida o Budismo pretende ser um ensinamento de “vir” e “ver” que ganha relevância prática na medida em que o indivíduo aceita a proposta, verificando se ela é verdadeira conforme as suas próprias experiências.

O capitulo 4.iv fala sobre o Islã e o Judaísmo apresentando convergências com o Budismo. Você pode explicar um pouco sobre o assunto?

Comparada com as atitudes críticas diante do Hinduísmo e do Cristianismo a postura de budistas diante do Judaísmo e do Islã é mais marcada pela busca de alguns pontos comuns entre as religiões. No caso do Judaísmo há, por exemplo, interpretações de termos técnicos hebraicos que supostamente representam conceitos compatíveis com a ontologia e a soteriologia budista. Vale também a pena lembrar os encontros entre representantes da comunidade judaica norte-americana e o Dalai Lama em que o último se demonstrou interessado nas estratégias que permitiram ao povo judeu garantir a sua integridade cultural e religiosa durante séculos, mesmo sem possuir um território próprio. O diálogo entre budistas e muçulmanos é construtivo na medida em que a mística do sufismo torna-se um item na agenda.

O livro é resultado de uma tese ou de um estudo?

Trata-se da minha tese de livre-docência, aliás, a primeira no Brasil na área de Ciência da Religião.

Ao escrever o livro, você pensa em atingir algum público específico? Qual?

A densidade de informações, a linguagem, a forma (número grande de notas de rodapé) e as fontes utilizadas refletem que o livro nasceu como um trabalho científico em função de obter o título de um Livre-Docente. Ao mesmo tempo tomei cuidado de apresentar os argumentos de uma maneira didática, o que deve agradar o leitor menos acostumado com a literatura acadêmica.

Para conhecer o autor:

Frank Usarski é Doutor com tese sobre os mecanismos e motivos da estigmatização pública de Novos Movimentos Religiosos na Alemanha Ocidental (1987), e pós-doutorado (1992-93) na área de Ciência da Religião pela Universidade de Hannover (Alemanha), sobre o papel das religiões nas Exposições Mundiais entre 1851 e 1900. Desde sua chegada ao Brasil em 1998 faz parte do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC-SP. Em 2009 obteve o título de Livre-Docente na área de Ciências da Religião pela PUC-SP. Entre suas atividades acadêmicas destacam-se a pesquisa, o ensino e as diversas publicações sobre as Religiões Orientais bem como sobre a história e o perfil atual da Ciência da Religião. Além disso é fundador e coordenador da Revista de Estudos da Religião (REVER) e líder do grupo de pesquisa Centro de Estudos de Religiões Alternativas de Origem Oriental no Brasil (CERAL).

Mais detalhes encontram-se no CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/1258512254101119

Contatos com o autor:

E-mail: usarski@pucsp.br

Para conhcer mais http://www.ideiaseletras.com.br

Nicolau Kietzmann Goldemberg

DGNK Assessoria de Imprensa

11- 3070-3336

11 – 8273-6669

nicolau@dgnk.com.br

www.dgnk.com.br

http://www.editoraideiaseletras.wordpress.com

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